segunda-feira, 21 de outubro de 2013

COLUNA - Quadrinhos Que Fazemos - 02


SE É PRA SER AUTOR - por André Caliman


Neste segundo artigo, resolvi explicar o porquê do nome desta coluna. Como autor de histórias em quadrinhos me pergunto sempre que tipo de quadrinhos estou produzindo para o meu público. E quando penso nisso, sempre acabo pensando no tipo de quadrinhos que eu leio, e mais importante ainda, nos quadrinhos que eu li.

Muito do que somos e gostamos é resultado daquilo que vimos e aprendemos na infância, adolescência e fase adulta, é claro. E para um autor, não seria essa carga que vai definir a direção do seu trabalho? Receio que isto seja verdade. Ah, por que o receio? Simples, basta ir à banca mais próxima e ver o que está em cima das prateleiras.

Talvez isso explique porque temos muito mais profissionais de quadrinhos trabalhando para o mercado americano de super-heróis, do que enriquecendo as prateleiras das nossas livrarias. Ah, as livrarias...


Isso não é uma crítica aos incríveis quadrinistas brasileiros que fazem o mercado americano muito mais suportável. Eles acharam o mercado e estão fazendo um trabalho maravilhoso. Mas aqui nesta coluna, pretendo mostrar sempre mais do quadrinho autoral brasileiro (exemplos acima). Ainda há pouco, porém está ficando cada vez mais fácil de achar: Na internet, comic chops e nas livrarias. Procure a sessão de quadrinhos da próxima vez que entrar numa livraria e com certeza terá uma grata surpresa. Claro que constatará bem rápido que, mesmo lá, os brasileiros são minoria. Mas eles estão lá. E são muito bons!

Voltando ao conflito: Por que temos poucos autores e, por consequência, poucas obras significativas em quadrinhos (tomando outros países como parâmetro)? Seria a herança amarga da covardia dos editores do passado? Seria a falta de crença desses editores nos autores nacionais? Seria a nossa conhecida cultura de valorizar mais as coisas de fora?

Em contrapartida, devo agradecê-los (os editores) por, ao fazerem isso, terem aberto meus olhos sobre a possibilidade de ser um autor mais voltado à minha realidade como quadrinista brasileiro?

A maioria dos meus autores favoritos é estrangeira e eu adoro o trabalho deles. Mas se é para ser autor, recuso-me a redesenhar o mesmo super-herói voando na mesma direção e me convencendo que a causa dele é a minha causa. E a situação mais dramática e mais libertadora: Ao criar um personagem, me recuso a chamá-lo de James, Peter ou Mary.

Sabendo disso, sei que agora é a hora de seguir o caminho certo. Esse caminho está sendo construído, e para funcionar, falta uma peça. Os leitores precisam descobrir seus próprios autores.

Certa vez, alguns meses atrás, fui fazer um lanche num bar próximo ao meu estúdio, e o balconista perguntou o que eu fazia. Eu disse que fazia quadrinhos e ele disse ser um grande leitor, desde pequeno. E prontamente me perguntou quais eram os meus quadrinhos, na mais utópica certeza de que os acharia na banca ali na frente. Eu respondi quais eram, mas disse que grande parte deles havia sido publicada apenas nos Estados Unidos e a outra parte não era assim tão fácil de achar.

Ele ficou desanimado, mas se impressionou quando eu disse que muitos quadrinistas brasileiros trabalham para editoras americanas, inclusive desenhando os super-heróis que ele lê por aqui, com algum tempo de atraso entre a publicação aqui e lá.

Num determinado momento da conversa, chegamos a comparar os artistas de quadrinhos brasileiros com as laranjas brasileiras que bebemos exprimidas nas caixinhas de suco de marca estrangeira. Assim como os quadrinistas, estas têm de viajar para fora do país a fim de ganharem valor e depois voltarem empacotadas numa embalagem feita por outros.

Pareço pessimista? Acreditem, está mais para realista.

Para mudar essa realidade, precisamos acreditar e, principalmente, consumir mais dos nossos autores, pois o autor é alguém que olha para si mesmo, para sua realidade e cria algo a partir disso, criando uma ligação com os leitores que vivem os mesmos prazeres e dificuldades.

Nosso quadrinho autoral deve ganhar mais força, e novamente, mídias alternativas, como o Catarse, que viabiliza essa mudança:








Se for para ser autor, é bom assumir a responsabilidade que isso implica a despeito do que o mercado aponta como bonito ou feio, e se for para alguém ditar as regras dos quadrinhos que fazemos, que seja o leitor, e que este tenha a possibilidade de conhecê-los antes. E se não gostarem, nada terá sido em vão, pois se for para ser autor, há de se ter mais do que liberdade, há de ter coragem.

Até a próxima!

André Caliman.


Um comentário:

Luan Zuchi disse...

Santas palavras André!
Concordo em número, gênero e grau.
Olho com tristeza esse processo de embalagem de suco das nossas saborosas laranjas!
Tenhas fé e mãos à obra, vamos ajudar a mudar as coisas, vamos fazer quadrinhos. o/
Abraço!